Escolha uma Página

Volta às Aulas: A Angústia da Separação e o Olhar de Winnicott

Volta às Aulas: A Angústia da Separação e o Olhar de Winnicott

Introdução

Janeiro chega ao fim e, com ele, surge aquele “frio na barriga” que não é exclusivo das crianças: a volta às aulas. Para muitos pais, deixar o filho no portão da escola pela primeira vez — ou após longas férias — desperta um sentimento profundo de insegurança e culpa. Será que ele vai chorar? Será que a professora vai entender o jeito dele?

Essa angústia da separação é um processo natural e, acredite, necessário para o desenvolvimento psíquico. Mas como podemos atravessar esse momento sem traumas? A psicanálise, especialmente através das lentes sensíveis de Donald Winnicott, nos oferece ferramentas valiosas para transformar esse momento de ruptura em uma experiência de amadurecimento e confiança.

Criança entrando na escola segurando um urso de pelúcia, representando o objeto transicional na adaptação escolar.


O que é a Adaptação Escolar na Visão da Psicanálise?

Na psicanálise, a adaptação escolar não é apenas “acostumar-se” a um novo local, mas um processo de ampliação do mundo interno da criança. É o momento em que ela transita da segurança absoluta da família para um novo ambiente social. Para Winnicott, o sucesso dessa transição depende de a escola atuar como um “ambiente facilitador”, capaz de sustentar emocionalmente (holding) a criança enquanto ela experimenta a ausência dos pais.


A Angústia da Separação: Um Sinal de Vínculo, Não de Doença

Muitos pais chegam ao consultório preocupados com o choro excessivo dos filhos na porta da escola. É fundamental esclarecer: a angústia diante da separação é um sinal de que existe um vínculo afetivo saudável. Em “Inibição, Sintoma e Angústia”, Freud nos ensina que a ansiedade surge diante da perda do objeto amado (neste caso, a mãe ou o cuidador principal).

A criança não chora apenas porque “não gosta da escola”, mas porque está lidando com o medo de perder o amor e a proteção de quem é sua referência vital. O choro é a elaboração dessa perda temporária. O problema não é a angústia em si, mas como o ambiente (pais e escola) reage a ela. Se os pais demonstram ambivalência ou culpa excessiva, a criança capta essa insegurança e confirma sua fantasia de que a escola é um lugar “perigoso” do qual ela deveria ser protegida.

O “Objeto Transicional” na Mochila Escolar

Você já notou que muitas crianças insistem em levar um paninho, um urso de pelúcia velho ou até um brinquedo quebrado para a escola? Donald Winnicott chamou isso de Objeto Transicional.

Na prática clínica, observamos que esses objetos não são meros brinquedos. Eles ocupam uma “zona intermediária” entre a realidade interna (a mãe) e a realidade externa (a escola).

  • A função do objeto: Ele representa o conforto materno em um ambiente estranho. Ele tem o “cheiro de casa”.

  • Como lidar: Jamais force a criança a deixar seu objeto transicional em casa “porque é feio” ou “velho”. Permita que ela o leve na mochila. Ele é a ponte segura que permite que a criança brinque e aprenda na ausência dos pais.

Leia também em nosso blog: A Brincadeira na Psicoterapia Infantil: Um Guia Completo

A Escola como Espaço de “Holding”

Para que a aprendizagem ocorra, a criança precisa se sentir “sustentada”. Winnicott usa o termo Holding para descrever a capacidade da mãe de conter as ansiedades do bebê. Na fase escolar, essa função é transferida para a professora e para a instituição.

Uma escola suficientemente boa não é apenas aquela com o melhor material didático, mas aquela que oferece holding. Isso significa:

  1. Acolhimento real: Validar o choro da criança em vez de distraí-la imediatamente.

  2. Previsibilidade: Rotinas claras que diminuem a ansiedade do desconhecido.

  3. Parceria: Uma comunicação transparente que faz a criança sentir que “a mamãe confia na professora”.

Quando a escola exerce essa função, ela se torna um Espaço Potencial, onde a criatividade e o aprender podem florescer.


Sigilo Profissional e o Espaço Clínico

É importante ressaltar que, embora a angústia de separação seja esperada, existem casos onde o sofrimento paralisa o desenvolvimento. Se a recusa escolar for persistente, acompanhada de sintomas psicossomáticos (vômitos, febre sem causa aparente, terror noturno) por um longo período, pode ser necessário um olhar clínico especializado.

O espaço da análise, protegido pelo sigilo profissional e pela ética, é o local adequado para investigar se essa angústia está denunciando algo além da adaptação: talvez uma dinâmica familiar que precisa ser revista ou questões singulares da subjetividade da criança que pedem escuta atenta.


Perguntas Frequentes (FAQ)

Quanto tempo dura a adaptação escolar segundo a psicologia? Não existe um tempo cronológico fixo, pois cada sujeito tem seu tempo psíquico. Em média, espera-se uma melhora progressiva entre 2 a 4 semanas. Se o sofrimento persistir sem alívio, vale consultar um psicólogo.

Devo sair escondido do meu filho para ele não chorar? Nunca. A “fuga” dos pais gera desamparo e quebra a confiança. A despedida deve ser clara, amorosa e breve. Diga que vai sair e que vai voltar. A previsibilidade do retorno é o que acalma a angústia.

O que fazer se a criança não quiser largar o objeto transicional (naninha)? Respeite. O objeto transicional é uma defesa saudável contra a ansiedade. Com o tempo e a segurança no ambiente escolar, a própria criança deixará o objeto de lado naturalmente para explorar o brincar com os colegas.


Conclusão

A volta às aulas em 2026 é mais do que comprar cadernos e ajustar horários; é um convite para confiar na capacidade do seu filho de criar novos laços. Ao oferecer um suporte emocional seguro (holding) e permitir o uso de seus recursos transicionais, estamos ajudando a formar não apenas bons alunos, mas sujeitos mais autônomos e criativos. Lembre-se: a educação começa na confiança de que o amor sobrevive à distância.


Fontes de Pesquisa:

    1. WINNICOTT, D. W. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

    2. FREUD, S. Inibição, Sintoma e Angústia (1926). Obras Completas.

    3. SciELO Brasil – Artigos sobre Psicologia Escolar: https://www.scielo.br

    4. PePSIC – Periódicos Eletrônicos em Psicologia: http://pepsic.bvsalud.org

    5. Sociedade Brasileira de Psicanálise (Artigos sobre Infância).

Para complementar o entendimento sobre como a teoria de Winnicott se aplica na relação entre a criança, a família e a escola, recomendo este vídeo que aprofunda o tema: O PENSAMENTO DE WINNICOTT | A relação da criança com o professor

0 comentários

Precisa de ajuda? Fale com a Êxito