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Você já viu seu pai chorar? Psicanálise e o silêncio

Você já viu seu pai chorar? Psicanálise e o silêncio

Faça um exercício rápido de memória. Você já viu seu pai chorar de verdade? Provavelmente, a resposta é não. Durante muitas gerações, os homens foram duramente adestrados para engolir os próprios sentimentos. A frase “homem não chora” destruiu a saúde mental masculina ao longo dos anos. Portanto, a sociedade criou adultos com imensa dificuldade de expressar afeto ou vulnerabilidade. Sendo assim, o silêncio tornou-se a grande prisão emocional dos homens modernos.

Na psicanálise, o silêncio emocional masculino é resultado de um machismo estrutural profundo. Sendo assim, o homem é adestrado desde cedo a reprimir a sua dor. Consequentemente, essa repressão gera um Falso Self rígido, culminando em graves adoecimentos físicos e forte isolamento afetivo na vida adulta.

O Peso do “Homem Não Chora”

Para começar, precisamos olhar atentamente para a primeira infância. O psicanalista Donald W. Winnicott estudou a formação da nossa personalidade. Segundo ele, a importância do ambiente para o desenvolvimento emocional é absolutamente inegável. Quando um menino cai e chora, ele é rapidamente repreendido. Os adultos exigem que ele engula o choro e seja forte.

Consequentemente, a criança percebe que as suas emoções não são bem-vindas. Para sobreviver a essa rejeição, ela cria uma máscara de dureza. Winnicott chama isso de Falso Self. Ou seja, o homem constrói uma casca impenetrável. Ele passa a vida inteira fingindo que não sente dor. Contudo, o seu “Eu Verdadeiro” fica preso, sufocado e profundamente solitário.

O Recalque e o Adoecimento Físico

Por outro lado, a emoção humana nunca desaparece por decreto. Sigmund Freud explicou muito bem esse fenômeno através do conceito de Recalque. Quando reprimimos uma angústia, ela vai direto para o Inconsciente. Sendo assim, a dor não verbalizada acaba procurando outras formas perigosas de sair. Frequentemente, essa fuga acontece através do próprio corpo físico.

O silêncio emocional adoece as células. Homens sofrem infartos fulminantes, desenvolvem gastrites severas e dores crônicas incuráveis. O esgotamento mental reprimido frequentemente desencadeia sintomas terríveis de Burnout. Eles trabalham até o limite máximo para não precisarem pensar nas próprias feridas. Além disso, a literatura científica é muito clara sobre isso. Inúmeros estudos publicados na base SciELO mostram as altas taxas de morbimortalidade entre a população masculina que recusa o cuidado psicológico.

O Dispositivo da Eficácia Masculina

Além da teoria clássica, a psicologia brasileira atual traz respostas fundamentais. A pesquisadora e doutora Valeska Zanello estudou profundamente o impacto do machismo na subjetividade. Ela criou o brilhante conceito do “Dispositivo da Eficácia”. Segundo a autora, a sociedade ensina que o valor do homem está apenas na sua força de trabalho. Portanto, a autoestima masculina depende exclusivamente de prover, produzir e suportar o peso do mundo.

Sendo assim, o homem é tragicamente “castrado” da sua própria humanidade. Ele perde o direito legítimo de pedir colo. Quando ele perde o emprego ou falha sexualmente, a sua identidade inteira desmorona. Ele não sabe quem ele é fora da produtividade. Consequentemente, o sofrimento psíquico torna-se absolutamente insuportável e silencioso.

A Fuga Através da Raiva e da Agressividade

Como resultado de todo esse bloqueio, a tristeza sofre uma mutação. A sociedade ensinou que o homem triste é “fraco”. Contudo, o homem raivoso ainda é visto como “poderoso”. Portanto, a raiva virou a única emoção socialmente aceita para o sexo masculino. Quando um homem sente medo, insegurança ou ciúmes, ele explode em fúria.

Essa incapacidade de nomear os sentimentos destrói completamente as suas relações interpessoais. Os conflitos familiares graves nascem dessa imensa falha de comunicação. O homem agride com palavras porque não sabe dizer “eu preciso de ajuda” ou “eu sinto muito”. A ausência de um vocabulário emocional transforma o lar em um campo de batalha constante.

A Nossa Atuação na Clínica

Na prática clínica do Centro de Psicologia e Educação Êxito, vemos os reflexos dolorosos dessa educação opressora. Geralmente, os homens não procuram a terapia por iniciativa própria. Na maioria das vezes, eles chegam ao consultório após um ultimato da esposa ou após um grande colapso físico. Existe muito preconceito e medo de acessar a própria fragilidade.

Portanto, o nosso papel inicial é desconstruir a ideia de que a terapia é um sinal de fraqueza. Trabalhamos para criar um vocabulário emocional completamente novo para esse paciente. O objetivo principal é conectar o pensamento ao sentimento. Ensinamos que ser forte de verdade exige uma coragem imensa para ser vulnerável. O espaço terapêutico é o lugar seguro onde a armadura enferrujada finalmente pode cair no chão. Chorar não diminui a sua masculinidade; apenas devolve a sua humanidade perdida.

Referências Bibliográficas Clássicas:

  • WINNICOTT, D. W. (1960). A distorção do ego em termos de falso e verdadeiro self. In: O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed.

  • FREUD, S. (1915). O Recalque. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago.

Artigos de Autoridade na Área da Psicologia:

  1. ZANELLO, V. (2018). Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação. Curitiba: Appris.

  2. DUNKER, C. I. L. (2015). Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros. São Paulo: Boitempo.

  3. KEUHL, M. R. (2002). Deslocamentos do feminino: a mulher freudiana na passagem para a modernidade. Rio de Janeiro: Imago. (Reflexão em espelho estrutural à construção das masculinidades).

FAQ Baseada em Dados:

1. Por que os homens têm tanta dificuldade em fazer psicoterapia? Os homens são socializados para acreditar que pedir ajuda é um sinal claro de fraqueza. Sendo assim, o machismo estrutural exige que eles resolvam todos os problemas sozinhos, afastando-os do cuidado preventivo em saúde mental.

2. Qual é a relação entre o silêncio emocional e as doenças físicas? A psicanálise ensina que emoções reprimidas (o recalque) retornam através do corpo. Consequentemente, o estresse e a tristeza que não são verbalizados transformam-se rapidamente em gastrites, insônia, hipertensão e doenças cardiovasculares.

3. O que é o Falso Self na masculinidade? O Falso Self é uma máscara psicológica descrita por Winnicott. No caso masculino, o menino cria uma armadura rígida de indiferença para ser aceito pelo mundo, escondendo a sua vulnerabilidade e a sua verdadeira essência afetuosa.

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