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Autismo e Psicanálise: Diferente Forma de Ver o Mundo

Autismo e Psicanálise: Diferente Forma de Ver o Mundo

O mês de abril inaugura-se tingido de azul, convocando a sociedade a refletir sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Historicamente, o olhar lançado sobre o autismo foi dominado pelo viés estritamente médico e corretivo. A criança autista era frequentemente vista através da lente da falta: o que ela não fala, como ela não interage, o que ela não consegue fazer. Num mundo que idolatra a normatividade e a hipercomunicação, o silêncio, o balançar do corpo e a fuga do olhar são rapidamente rotulados como defeitos de uma máquina biológica que precisa de ser “consertada”.

Contudo, reduzir o autismo a um aglomerado de sintomas comportamentais a serem extirpados é apagar o sujeito que ali habita. O sofrimento de muitas famílias e indivíduos no espectro não decorre apenas das barreiras neurológicas, mas da violência de um ambiente que exige que eles deixem de ser quem são para caberem num molde neurotípico. A psicanálise moderna não recusa a biologia, mas propõe uma mudança radical de paradigma: e se, em vez de tentarmos treinar a criança para imitar a “normalidade”, tentássemos escutar o que a sua estruturação singular tem a dizer?

Ilustração abstrata e conceitual representando a neurodiversidade, com uma forma geométrica complexa e bela protegida por uma esfera translúcida, simbolizando a singularidade e a proteção psíquica no autismo.

Neste artigo, o Centro de Psicologia e Educação Êxito propõe uma leitura profunda sobre a vida emocional no autismo, utilizando os contributos de Donald Winnicott, Melanie Klein e psicanalistas contemporâneos para demonstrar que o autismo não é uma doença a curar, mas uma linguagem a traduzir.


O que é o autismo na visão da psicanálise? Na psicanálise, o autismo não é uma doença a ser curada, mas uma estruturação psíquica singular. É uma forma de defesa extrema contra angústias primitivas, onde a criança utiliza o encapsulamento para se proteger de um mundo percebido como ameaçador, procurando construir contornos seguros para existir.


A Queda no Vazio e as “Angústias Impensáveis” de Winnicott

Para compreendermos o universo autista, precisamos de recorrer a Donald W. Winnicott e ao seu estudo sobre as angústias mais arcaicas do ser humano. Winnicott explica que, nos primórdios da vida, o bebé não tem a noção de que o seu corpo tem limites. Ele precisa de um Holding (uma sustentação física e emocional) providenciado pelo ambiente para sentir que não se vai despedaçar ou cair num vazio infinito.

No caso do autismo, por razões intrínsecas ao neurodesenvolvimento e à complexa biologia da criança, este Holding não é apreendido da forma habitual. Não se trata de uma “falha da mãe”, mas de uma assimetria na receção dos estímulos. A criança autista vivencia, com uma intensidade aterradora, aquilo a que Winnicott chamou de “angústias impensáveis” — o terror de se desintegrar, de vazar pelo espaço ou de não ter uma pele que a contenha.

Os comportamentos repetitivos (estereotipias), como o balançar o tronco (flapping) ou o alinhar rigoroso de carrinhos, que a visão comportamentalista frequentemente tenta reprimir, são compreendidos pela psicanálise como tentativas heroicas de sobrevivência. São recursos criados pela criança para desenhar um contorno no seu próprio corpo e organizar um mundo caótico. Retirar abruptamente estes movimentos, sem oferecer um substituto simbólico, é lançar a criança de volta ao vazio que a aterroriza.

O Encapsulamento e as Barreiras Autistas (Klein e Tustin)

Avançando na investigação das defesas psíquicas, Melanie Klein ensina-nos sobre a Ansiedade Persecutória presente nas fases mais primitivas da mente. Quando o mundo externo é sentido como excessivamente barulhento, caótico ou invasivo, o Ego primitivo sente-se sob ataque constante.

A psicanalista Frances Tustin, pioneira no tratamento psicanalítico do autismo (que bebeu da fonte kleiniana e winnicottiana), descreveu como a criança autista ergue “barreiras autistas” para sobreviver a esta invasão. Enquanto uma criança neurotípica utiliza brinquedos macios para lidar com a ansiedade de separação (o célebre objeto transicional, fundamental, por exemplo, na adaptação escolar), a criança autista utiliza “objetos de sensação autística”.

Muitas vezes, são objetos duros (uma tampa de garrafa, um pedaço de metal) que ela aperta com força não para brincar de faz-de-conta, mas para tapar imaginariamente um buraco no seu psiquismo. O encapsulamento (o isolamento severo) é uma armadura forjada para evitar que o “eu” se despedace no contacto com o outro. O trabalho analítico não é arrancar a armadura à força, mas tornar o ambiente suficientemente seguro para que a criança decida, a seu tempo, baixar a guarda.

A Desconstrução da Culpa Materna na Clínica Atual

É imprescindível utilizar este espaço para fazer uma reparação histórica. Nas décadas iniciais da psicanálise, teorias equivocadas (como a da “mãe geladeira”) culparam as mães pelo autismo dos seus filhos. A psicanálise contemporânea e o Centro de Psicologia e Educação Êxito rejeitam veementemente esta violência.

O autismo possui bases genéticas e neurobiológicas irrefutáveis. Contudo, a biologia não anula a subjetividade. O facto de uma criança ter um cérebro que processa a informação de forma atípica não significa que ela não tenha desejos, medos, fantasias inconscientes (Freud) e necessidade de vínculo.

O que observamos, clinicamente, é que a mãe de uma criança autista sofre porque o seu bebé não responde aos estímulos da forma esperada, o que gera uma angústia profunda e uma ferida no ideal da maternidade. Aceitar as próprias dores e desconstruir a obrigação da perfeição (sendo uma mãe suficientemente boa) é vital para que a família sobreviva ao diagnóstico e possa investir na criança real, não na criança idealizada.

A Escuta Clínica no Centro de Psicologia e Educação Êxito

Na prática clínica do Centro de Psicologia e Educação Êxito, o nosso foco no tratamento de indivíduos no Transtorno do Espectro Autista transcende o treino de habilidades. Nós apostamos na construção de um sujeito.

Quando um paciente autista chega ao consultório — seja ele uma criança sem linguagem verbal ou um adulto com autismo de nível de suporte 1 (antigamente chamado de Asperger) exausto de “mascarar” as suas características para agradar à sociedade —, a nossa postura ética é a da escuta e do respeito absoluto pelo seu modo de funcionamento.

  1. Acolher a Defesa: Não proibimos as repetições ou o interesse restrito (hiperfoco). Nós entramos nesse interesse restrito e utilizamo-lo como uma ponte para estabelecer um vínculo seguro.

  2. Construção do Ritmo: Respeitamos o tempo do paciente. A entrada na relação terapêutica é gradual, garantindo que o psicólogo não se torne mais um “objeto invasor” num mundo já por si aterrador.

  3. Suporte à Família: Oferecemos um espaço seguro de psicoterapia para os pais. Sabemos que o luto pelo filho idealizado e o enfrentamento do capacitismo social geram exaustão. Cuidar dos pais é a forma mais eficaz de cuidar da criança autista.

O autismo não é uma tragédia, é uma neurodiversidade. Requer suporte, adaptações e respeito. Se a sua família recebeu recentemente um diagnóstico e se sente perdida num mar de intervenções frias e mecânicas, saiba que existe um caminho mais humano. Convidamo-lo a conhecer os serviços especializados e a nossa equipa clínica, prontos para vos acolher. O mundo é, sem dúvida, um lugar melhor e mais complexo porque existem diferentes formas de o ver.


Perguntas Frequentes (FAQ)

1. A psicanálise cura o autismo? Não. O autismo é uma condição do neurodesenvolvimento e uma estrutura de funcionamento, não uma doença a ser “curada”. A psicanálise oferece tratamento para o sofrimento psíquico da pessoa autista, ajudando-a a lidar com as suas angústias, a construir pontes de comunicação com o mundo externo e a encontrar uma forma menos dolorosa de existir em sociedade.

2. Qual a diferença entre a visão psicanalítica e as terapias comportamentais no autismo? As terapias comportamentais focam-se na modelagem e adaptação de comportamentos (fazer com que a criança aprenda habilidades e reduza atitudes atípicas). A psicanálise, por sua vez, foca-se na vida subjetiva e emocional. Para o psicanalista, o comportamento atípico (como uma crise de choro ou um movimento repetitivo) não é algo apenas a ser extinto, mas uma linguagem que comunica uma angústia profunda que precisa de ser acolhida e traduzida.

3. Uma criança autista não-verbal pode fazer psicoterapia? Sim, com absoluta certeza. A psicanálise não se faz apenas através da palavra articulada. O brincar, o desenho, os movimentos corporais, a forma como a criança ocupa o espaço do consultório e interage (ou não) com os objetos são todas formas de discurso que o psicólogo analítico está preparado para escutar, acolher e trabalhar.


Referências Bibliográficas:

  • WINNICOTT, D. W. (1975). O Medo do Colapso (Fear of Breakdown). In: Explorações Psicanalíticas. Porto Alegre: Artmed.

  • TUSTIN, F. (1990). Barreiras Autistas em Pacientes Neuróticos. São Paulo: Imago.

  • KLEIN, M. (1946). Notas sobre alguns mecanismos esquizoides. In: Inveja e Gratidão e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago.

Artigos de Autoridade na Área da Psicologia (Base Teórica Complementar):

  1. JERUSALINSKY, A. (et al.) (1999). Psicanálise e Autismo. São Paulo: Instituto Langage. (Obra de referência clínica na psicanálise lacaniana/contemporânea sobre a estruturação do sujeito autista).

  2. LAZNIK, M.-C. (2004). A voz da sereia: o autismo e os impasses na constituição do sujeito. Salvador: Ágalma.

  3. KANNER, L. (1943). Distúrbios autísticos do contato afetivo. (Texto histórico fundador para a compreensão da base clínica do TEA, lido à luz da crítica psicanalítica moderna).

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