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Agressividade e Amor: Por que sentimos raiva de quem amamos?

Agressividade e Amor: Por que sentimos raiva de quem amamos?

Introdução: O fim da “lua de mel” e a realidade da convivência

Fevereiro avança e a novidade do início das aulas ou do retorno ao trabalho começa a dissipar. Entramos agora na fase de atrito. É aquele momento em que a criança volta a fazer birra na porta da escola, morde o coleguinha ou, dentro de casa, a paciência dos pais encurta.

Surge então um sentimento tabu: a raiva. Muitos pais se sentem monstros por sentirem irritação profunda com os filhos. Casais se culpam por oscilarem entre paixão e ódio na rotina doméstica. Mas a psicanálise tem uma notícia libertadora: o ódio é vizinho de porta do amor.

Não existe relacionamento humano profundo sem ambivalência. Tentar suprimir a agressividade a todo custo não nos torna “bons”; nos torna artificiais. Hoje, vamos explorar como Melanie Klein e Donald Winnicott nos ensinam a usar essa energia não para destruir, mas para fortalecer os vínculos.

Criança entregando desenho para a mãe como gesto de reparação e amor após uma birra.


💡 O que é a Agressividade na Visão Psicanalítica?

Diferente da violência (que visa destruir), a agressividade na psicanálise é vista como uma força vital. Para Winnicott, ela é sinônimo de “motilidade” e energia de vida. Para Melanie Klein, ela é parte inata das nossas relações objetais. O desafio do amadurecimento não é extirpar a agressividade, mas integrá-la ao amor, permitindo que surja a capacidade de Reparação.


Amor e Ódio: A Posição Depressiva de Melanie Klein

Melanie Klein, psicanalista pós-freudiana que revolucionou o entendimento da mente infantil, nos apresentou um conceito fundamental: a Posição Depressiva (que nada tem a ver com a doença depressão).

Nos primeiros meses de vida, o bebê divide o mundo (e a mãe) em dois: o “seio bom” (que alimenta e acolhe) e o “seio mau” (que frustra e demora). Ele ama um e odeia o outro, sem perceber que são a mesma pessoa.

O amadurecimento chega quando a criança (ou o adulto) percebe: “A mesma mãe que eu amo quando me dá colo é a mãe que eu odeio quando diz não”. Essa integração gera culpa. O medo de ter machucado quem amamos com nossa raiva (mesmo que em fantasia) nos leva ao desejo de Reparação.

É aqui que nasce o cuidado genuíno. Quando seu filho morde e depois quer fazer carinho, ou quando você perde a paciência e depois pede desculpas, estamos vivendo a beleza da Posição Depressiva. Aceitar que somos feitos de amor e ódio nos torna mais tolerantes com as falhas dos outros e com as nossas.

Winnicott e a Agressividade como Vitalidade

Enquanto Klein foca na culpa e reparação, Winnicott traz um olhar sobre a sobrevivência. Para ele, a criança precisa “atacar” o ambiente para descobrir se ele é real e resistente.

É como se a criança perguntasse através da birra ou do teste de limites: “Se eu mostrar o meu pior lado, você continua me amando? Você sobrevive à minha destruição?”.

Se os pais (ou a escola) reagem com vingança ou desmoronam, a criança sente que sua agressividade é perigosa e precisa ser escondida (gerando um Falso Self bonzinho e submisso). Mas, se os pais “sobrevivem” — ou seja, mantêm a firmeza e o afeto sem retaliação — a criança aprende que o amor é mais forte que a destruição. Isso traz uma segurança emocional inabalável.

Reflexão Clínica: Do que temos medo?

Na prática clínica, observamos que o medo da própria agressividade gera adultos passivos, incapazes de dizer “não” ou de defender seus desejos.

  1. Valide o Sentimento, limite o Ato: É permitido sentir raiva do filho, do cônjuge ou do chefe. O sentimento é involuntário. O que fazemos com ele (o ato) é nossa responsabilidade.

  2. O Poder da Reparação: Errou? Gritou? Perdeu a cabeça? Não se afunde em culpa tóxica. Repare. Peça desculpas. Explique para a criança: “A mamãe/papai estava nervosa, mas eu te amo e já passou”. A reparação ensina mais sobre humanidade do que a perfeição inatingível.

  3. A “Mordida” Escolar: Se seu filho mordeu ou bateu na escola nesta fase, evite rótulos de “agressivo”. Ele está comunicando algo (desejo, frustração ou teste). Acolha a criança e ajude-a a traduzir o ato em palavras.


Importância do Sigilo e Ética Profissional

Lidar com a própria sombra — a parte de nós que sente inveja, raiva e desejo de destruição — é assustador. Muitas vezes, só é possível confessar esses sentimentos em um ambiente de sigilo absoluto.

O consultório de psicologia é o lugar onde você pode dizer “eu odeio meu filho às vezes” sem ser julgado. Ao verbalizar esses sentimentos sombrios sob a ética do sigilo, eles perdem a força destrutiva e podem ser integrados à personalidade de forma saudável. Na Clínica Êxito, oferecemos esse espaço de escuta livre de moralismos, essencial para quem busca se conhecer por inteiro.


Perguntas Frequentes (FAQ)

É normal sentir raiva do meu filho pequeno? Sim. A convivência intensa e a demanda constante geram ambivalência. Sentir raiva não faz de você um pai ou mãe ruim; faz de você um ser humano. O importante é não atuar essa raiva (violência física ou verbal) e buscar reparação.

Por que meu filho está agressivo na escola? Fevereiro é mês de adaptação. A agressividade pode ser uma reação ao medo da separação ou uma forma primitiva de interagir. É uma fase de testes. Ele precisa saber se a professora e os pais suportam essa “energia” dele.

Como diferenciar agressividade saudável de violência? A agressividade saudável é energia de ação, busca por conquista e defesa de limites (vitalidade). A violência tem a intenção de aniquilar o outro. A psicanálise busca transformar violência em agressividade construtiva (trabalho, esporte, criatividade).


Conclusão

Não tenha medo da sua intensidade. O oposto do amor não é o ódio, é a indiferença. Se há atrito, há vida, há desejo e há relação. Que possamos usar este mês de fevereiro não para sermos “santos”, mas para sermos capazes de reparar nossos erros e amar com a inteireza de quem aceita suas próprias imperfeições.

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📚 Referências e Leitura Recomendada

  1. Klein, M. (1937). Amor, Culpa e Reparação. Imago Editora.

  2. Winnicott, D. W. (1971). O Brincar e a Realidade. (Capítulo: O uso de um objeto e a relação através de identificações).

  3. Scielo – Agressividade na Psicanálise de Winnicott

  4. PePSIC – Posição Depressiva e Reparação

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