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Terapia de Casal e Psicanálise: O Peso do Silêncio

Terapia de Casal e Psicanálise: O Peso do Silêncio

A cultura do bem-estar imediato e da positividade estética vende-nos uma ideia perigosa sobre o amor: a de que um relacionamento saudável é aquele desprovido de qualquer atrito. Nas redes sociais e nas narrativas de consumo, o casal perfeito é aquele que nunca eleva a voz e que concorda em absolutamente tudo. Contudo, na intimidade dos lares contemporâneos, essa ausência de conflito mascara frequentemente uma realidade clínica devastadora. Trata-se daquele silêncio pesado que se instala na mesa de jantar, onde os cônjuges rolam o feed dos seus celulares interminavelmente, dividindo o mesmo teto, mas habitando universos psíquicos completamente isolados.

O senso comum comemora: “Pelo menos a gente não briga”. A psicanálise, por outro lado, acende um sinal vermelho. Quando a hostilidade aberta cessa não pela resolução do problema, mas pela apatia, não estamos diante da paz conjugal. Estamos diante do cemitério do desejo. O silêncio absoluto em uma relação a dois raramente é um sinal de maturidade; na grande maioria das vezes, é o sintoma clínico de um vínculo que está, silenciosamente, entrando em falência múltipla de órgãos emocionais.

Ilustração conceitual e abstrata de duas cadeiras vazias com um coração de vidro congelado em um bloco de gelo entre elas, simbolizando a apatia, o silêncio e a retração emocional no casamento.

Neste artigo, o Centro de Psicologia e Educação Êxito convida você a olhar para além do verniz da convivência pacífica. Através do rigor estrutural de Sigmund Freud, Donald Winnicott e Melanie Klein, vamos investigar como o distanciamento afetivo opera, desvendando por que parar de conversar — e até de brigar — pode ser o estágio final do esgotamento relacional.

Na psicanálise, o que significa quando o casal não briga e não conversa? Na psicanálise, a ausência total de comunicação e conflito em um relacionamento frequentemente indica um profundo desinvestimento libidinal. Quando um casal para de dialogar e de brigar, a energia vital (pulsão) foi retirada da relação. Esse silêncio atua como uma defesa psíquica extrema contra a dor da frustração, resultando na morte do desejo conjugal.

Freud, a Economia da Libido e o Desinvestimento

Para compreendermos a gravidade da apatia conjugal, precisamos retornar à fundação da psicanálise freudiana e ao seu conceito de “economia da libido”. Para Sigmund Freud, a libido não se restringe à sexualidade genital, mas é a energia pulsional, a força vital que nos impulsiona em direção à vida e ao outro.

Um relacionamento amoroso só existe e sobrevive quando há um “investimento objetal” — ou seja, quando o sujeito direciona a sua energia libidinal para o seu parceiro. Amar e desejar o outro dá trabalho. Exige gasto de energia psíquica, exige lidar com as frustrações que o outro nos causa e exige a negociação constante entre a fantasia (aquilo que eu gostaria que o outro fosse) e a realidade (quem o outro de fato é).

Quando a frustração atinge níveis insuportáveis e o recalque de mágoas se acumula, o aparelho psíquico aciona um mecanismo de defesa drástico para não entrar em colapso. O indivíduo retira a sua libido do parceiro e recolhe essa energia para dentro do próprio Ego (um retorno ao narcisismo). O outro deixa de ser alvo de desejo e de ódio, tornando-se psiquicamente indiferente. É nesse momento que ocorre a substituição do afeto autêntico pela simples troca de informações práticas e logísticas. O casal passa a conversar apenas sobre a conta de luz, o conserto do carro ou a escola das crianças, utilizando a burocracia doméstica como um muro de contenção para evitar o encontro íntimo.

Winnicott e a Falência do Espaço Potencial a Dois

A frieza no relacionamento também pode ser lida através da brilhante lente do pediatra e psicanalista Donald W. Winnicott, especificamente através dos seus conceitos de Espaço Potencial e do Brincar.

Para Winnicott, a saúde mental de um indivíduo e a saúde de um vínculo dependem da capacidade de transitar na área intermediária entre a fantasia e a realidade. É o lugar da criatividade, do humor, dos apelidos íntimos, dos planos compartilhados e do relaxamento. Um casal saudável possui um espaço potencial rico: eles “brincam” juntos.

Quando um relacionamento adoece pelo silêncio, o que observamos é a dessecação completa desse espaço criativo. O casal perde a capacidade de rir das próprias falhas e o improviso desaparece. O vínculo passa a ser operado exclusivamente por um Falso Self conjugal — uma máscara de funcionalidade. Eles são excelentes parceiros de negócios na administração da casa, mas o Verdadeiro Self de cada um encontra-se asfixiado.

Essa dinâmica mecânica é assustadoramente comum em fases de transição, especialmente após o nascimento de filhos, onde a privação de sono e o doloroso luto da identidade conjugal após a exaustão do puerpério esgotam os recursos emocionais dos parceiros. Sem a manutenção de um espaço a dois livre das demandas parentais, a relação conjugal fenece sob o peso das fraldas e das obrigações, transformando cônjuges em meros colegas de quarto.

Melanie Klein e o Distanciamento como Defesa contra a Destrutividade

Para compreendermos o medo subjacente a esse silêncio, a obra de Melanie Klein é indispensável. Klein postula que todo vínculo profundo é, estruturalmente, ambivalente. Onde há um amor intenso, há também um ódio proporcional. O outro que nos satisfaz e nos acolhe é o mesmo sujeito que tem o poder de nos frustrar, nos decepcionar e nos fazer sofrer.

Para muitos casais que não alcançaram uma estabilidade na Posição Depressiva (fase onde o indivíduo tolera o fato de que quem ele ama também tem defeitos), a ambivalência torna-se aterrorizante. Na fantasia inconsciente kleiniana, a raiva sentida durante uma briga é percebida como uma força aniquiladora. “Se nós brigarmos, nós vamos destruir um ao outro”.

Para evitar essa suposta catástrofe, o casal aciona defesas esquizoides. Promovem uma clivagem: separam-se emocionalmente. O silêncio sepulcral e a ausência de brigas não representam paz, mas sim um pacto inconsciente de distanciamento para evitar a eclosão da agressividade reprimida. Ao evitar o conflito a todo custo, eles evitam a destruição, mas pagam o preço de matar o vínculo amoroso. Com o tempo, a sensação crônica de não ser visto ou desejado afunda as bases psíquicas do sujeito, e esse vazio relacional afeta de forma letal a construção do valor pessoal e a autoestima de ambos.

A Prática Clínica no Centro de Psicologia e Educação Êxito

Na prática clínica do Centro de Psicologia e Educação Êxito, recebemos rotineiramente casais que sentam no sofá do consultório com uma distância milimetricamente calculada entre si. A queixa inicial é quase sempre uma variação de: “Nós funcionamos muito bem, não temos atritos, mas parece que somos irmãos”.

O trabalho analítico não é um espaço para reatar romances artificialmente ou para dar “lições de comunicação não violenta”, que se mostram impotentes diante de defesas inconscientes tão maciças. Nosso trabalho é investigar o que o sintoma do silêncio está tentando dizer.

  1. Investigar o Pacto de Silêncio: Ajudamos o casal a verbalizar qual foi o momento exato, muitas vezes anos atrás, em que eles decidiram (inconscientemente) que não valia mais a pena tentar ser compreendido pelo outro.

  2. Suportar a Agressividade: O setting terapêutico deve ser suficientemente forte para suportar o ódio que foi guardado sob o tapete da polidez. Muitas vezes, para que a relação volte a pulsar, o casal precisa aprender a brigar — mas brigar de forma estruturante, sem o intuito de destruir a psique do parceiro.

  3. Descongelamento da Libido: Ao dar contorno e nome às frustrações não ditas, a energia que estava paralisada nas defesas do Ego é liberada. O sujeito pode, então, decidir conscientemente se deseja reinvestir essa libido na relação ou se o ciclo, de fato, chegou ao seu término lógico.

A apatia não é o estado natural do ser humano, é um grito sufocado de socorro de uma subjetividade que está passando fome. Se o seu relacionamento transformou-se em uma sala de espera fria e silenciosa, saiba que há rotas de retorno para a vitalidade. Convidamos você e o seu parceiro(a) a conhecerem os serviços de avaliação e terapia de casal com a equipe de especialistas do Centro Êxito, e a permitirem-se quebrar esse pacto de silêncio antes que ele consuma a capacidade de desejar.

Perguntas Frequentes (FAQ)

1. É possível salvar um relacionamento onde não há mais brigas, apenas indiferença? Sim, mas exige trabalho psíquico de ambas as partes. A indiferença é um mecanismo de defesa (desinvestimento). Na terapia de casal de orientação psicanalítica, o objetivo é acessar as mágoas e frustrações que foram congeladas para manter essa falsa paz. Quando o conflito real é finalmente colocado em palavras, a energia relacional pode voltar a circular.

2. Por que casais que não brigam muitas vezes acabam se divorciando de repente? Porque a ausência de brigas não significa ausência de conflito, significa ausência de elaboração. O parceiro que está profundamente insatisfeito silencia para não gerar desgaste, mas inicia um luto antecipado da relação. Quando o divórcio é finalmente verbalizado, para aquele parceiro a decisão já foi tomada internamente há anos, causando choque apenas na outra parte.

3. Como a psicanálise diferencia uma convivência madura de um relacionamento apático? Na convivência madura, a ausência de brigas violentas decorre da capacidade do casal de conversar e reparar falhas. O desejo, o humor e o interesse mútuo (o brincar winnicottiano) continuam presentes. No relacionamento apático, não há brigas, mas também não há intimidade, partilha de sonhos, toque espontâneo ou interesse pela vida interna do outro; a interação é restrita à gestão da rotina.

Referências Bibliográficas:

  • FREUD, S. (1914). Sobre o Narcisismo: uma introdução. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago.

  • WINNICOTT, D. W. (1971). O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago.

  • KLEIN, M. (1940). O luto e suas relações com os estados maníaco-depressivos. In: Amor, Culpa e Reparação e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago.

Artigos de Autoridade na Área da Psicologia (Base Teórica Complementar):

  1. PUGET, J.; BERENSTEIN, I. (1993). Psicanálise do casal. Porto Alegre: Artes Médicas. (Referência teórica essencial na construção da clínica psicanalítica para casais).

  2. EIGUER, A. (1989). Um divã para a família. Porto Alegre: Artes Médicas. (Trabalha a transmissão e a dinâmica transferencial nas sessões vinculares).

  3. LEMAIRE, J.-G. (1988). O casal: sua vida, sua morte: a estruturação conjugal. São Paulo: Martins Fontes.

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